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“Aprender é uma ‘multilação’”

Dezembro 14, 2008

Quem disse isso foi Manuel da Costa Pereira, em “Histórias de professores e alunos”, no conto chamado “Primeiras leituras”.

Esse conto foi usado como texto de apoio nesse útimo vestibular da UFMS  (30/11/08 e 1/12/08). Aliás, motivo da minha úlcera covarde, e principalmente do meu sumiço no blog ( o vestibular, não o texto de apoio).

Agora passando o texto pelo word antes de postar aqui, afinal também sou filha de Deus, percebi deslizes meus impagáveis. Sem contar que citei a frase do tal Manuel no título sem citá-lo no texto explicando de onde sugiu o trecho flutuante. Isso contribuiu para minha úlcera. Posso dizer que estou evoluindo para a fase terminal de tanto auto-ódio (se é que essa palavra existe). A pior parte, na minha opinião, foi o meu “L” adicional em mutilação. Que diabos é “multilação”? Matar alguém por excesso de multas? Cuidado leitores, burrice pega!

Eu só espero que eles (examinadores) tenham levado em conta as minhas aspas. Oxalá eles acreditem que foi recurso estilístico para exemplificar o trauma do aprendizado.

Enfim, eu ponho o texto que fiz para a prova de redação. A proposta era um texto do gênero memória. Coisa que eu entendi como uma maquilagem para crônica autobiográfica.

Lá vai…. seja o que Deus quiser!

“Aprender é uma multilação”.

Os tropeções eram soberbos. Dignos de grandes erros gramaticais. Felizmente quando corro pela folha não mais vejo os “muintos” de meus seis anos. Naqueles dias eu entendia por nasalização o emprego certo de “m” e “n” onde bem entendesse. E ainda hoje, confesso, teimo em separar o tal sujeito do predicado. Doravante entre os percalços de minha infância aprendi a saborear o livre fluxo das palavras no branco do papel.

Como a grande maioria dos adolescentes fui obrigada a ler os clássicos literários para um dia poder ser aprovada em um concurso, dito vestibular. Muitas vezes fora um ato mecânico. Estudava as escolas literárias, lia alguns livros e em seguida havia a prova. Coisas que a estrutura da educação de hoje possui. Mas com a graça de Baco tive loucos como professores. Antropófagos de nascença, capazes de tocar sinfonias em chinelas. Pareciam viver em constantes “insights” e me levavam a papear com todas as pessoas de Pessoa.

Levei o mundo da literatura e das sinestesias de Clarice para meus textos dissertativos. Nesse dia, a um canto da sala, minha professora de redação tomou-me para uma observação. Disse elogios sobre minhas curvas linhas. Mas ressaltou que em uma dissertação só havia espaço para linhas retas, bem concatenadas e lógicas onde a razão e objetividade gritavam em tamancos. Disse de meu texto subjetivo e um excesso de rococós. Mas era ela a clássica e barroca. Se havia alguém tomado de rococós não era eu, e sim a professora escondida debaixo da formalidade. Eu por outro lado expuz a alma e me escancarei no clímax, dita conclusão da dissertação.

Só que para meu desgosto ela estava certa. Há gêneros e gêneros e eu precisava segurar minhas euforias em textos mais comportados. Enfim aprendi a dissertar, mas amava o ritmo da crônica e a narrativa livre. Mesmo presa em gráficos e dados concretos fiz de minhas conclusões dissertativas pequenos manifestos, eu peguei a barata do conto de Clarice e a degluti para enfim ver “os mares nunca d’antes navegados”.

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Um quadrúpede motorizado

Agosto 29, 2008

Eis a cena.

Estamos entrando numa rotatória, no carro, meu pai e eu.

Quando estamos começando a fazer a curva, um motoqueiro mergulha na frente do carro.

Ele derrapa, mas não cai.

Ele pára a moto, desci dela, sai xingando e mete seu pezão de quadrúpede no NOSSO retrovisor esquerdo.

 

Embora eu estivesse com muita vontade de rebaixá-lo ao nível do chão, meu pai permaneceu inflexível no banco do motorista. Pediu para anotar a placa do infeliz. Eu o fiz, desejando esganar o dito motoqueiro.

 

Primeiro que a reação do meu pai foi quase divina. Segundo que a minha, ao contrário, foi quase gutural. Um fenômeno estranho, geralmente os papéis são o contrário. Ele esbraveja no volante e eu fico na minha.

 

Agora vamos definir o que eu senti.

Não posso dizer em palavras, por mais que eu tente, o quanto de raiva surgiu de ímpeto dentro de mim. Quando disse que minha vontade era esganar o paquiderme, não foi por força de expressão. Adoraria por minhas pequenas mãos nele e pressionar com toda a minha força aquilo que ele chama de pescoço.

 

Posso me tornar bastante agressiva quando alguém consegue atingir minhas camadas mais profundas. Infelizmente aquele pseudo-homem com rodas conseguiu me deixar realmente furiosa. Ainda estou fervendo, mas uma parte de mim diz: “Pobre idiota, o infeliz não tem grana para um carro nem para combústivel, e com certeza deve ter achado o máximo deixar o ‘busão’ de lado para ter uma ‘bicicleta com motor’”.

 

Mas só Deus sabe, que pela integridade física dele, deveria voltar a andar de ônibus, e ficar bem longe de mim.

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Os loucos de Guarulhos

Julho 15, 2008

Imaginem a situação. Você está caminhando com passos acelerados, com muita pressa. As coisas naquela manhã estavam dando fatidicamente tudo errado, e você precisa chegar em casa rápido para o horário do almoço, engolir algo e sair de novo para a profusão de problemas. E você pensa: “Putz, como eu precisava de uma carona agora!”

Então sobre sininhos tocando e pózinhos brilhantes surgi do nada um carro. A reação normal de qualquer garota seria pensar “oras bolas, mais um idiota me enchendo o saco!” . E foi o que eu pensei. Mas então, pude ouvir vozes do além, na verdade era uma pergunta sobre a região. Queriam saber onde ficava a igreja messiânica daqui. Eu sabia que era ali por perto, mas não saberia explicar. Talvez até fizesse com que eles se perdessem. Muito sem jeito eu disse: “An… eu… sei mais ou menos onde é, mas não saberia explicar direito”. E o que eles disseram? Simples! “Então entra aí e leva a gente lá. Se você morar por aqui nós te deixamos em casa depois.” (Meu Deus… socorro, estou sendo seqüestrada) Eu disse: “Moça, eu não sei não. Estou com muita pressa. Estou no meu horário de almoço. Preciso chegar logo em casa.” A mulher olhou pra mim e de maneira carinhosa perguntou se eu estava com medo. (Não demonstre medo, não demonstre medo, fi-que cal-ma) ” Eu… bem, é que isso não acontece todos os dias. As pessoas pedem informações. Elas não dão carona.” Olhando no interior do carro, vi que haviam pacotes de salgado, garrafas e uma bolsa térmica dessas que a gente leva para viajar. Ao lado da mulher loira, estava no volante um senhor de mais ou menos 50 anos. Estava vestido de bermuda bege e uma polo laranja. Sim, eu reparei em tudo! Precisava disso para a reconstituição, oras! Disseram ser de Guarulhos, estavam se mudando para cá. Vieram para arrumar o início da construção da casa deles. E apenas queriam relaxar  e sentir o johrei. E sabe… eu… entrei. Pronto, fud&¢$ tudo! Podem começar a economizar para o dinheiro do resgate! Provavelmente minha irmã precisaria começar a se prostituir, já que não temos tanta grana. Ou talvez uma troca entre eu e ela seria bem empregado. Já que eu poderia enfim concretizar um de meus sonhos saltando com o sutiã dela por um penhasco bonito. Mas enfim, o casal era legal. E eu tive sorte, muita sorte, de encontrá-los pelo caminho. Eu poderia estar realmente ferrada. Poderiam ser maníacos seqüestradores, traficantes de órgãos, ou como diria meu namorado, os illuminati. Disse que era próximo da casa de uma amiga, a Marcella. E que ela era da mesma igreja que eles. Chegando perto da casa dela percebi que tinha confundindo a tal igreja deles com uma capela católica, a Igreja São Cristóvão. Ai, ai, ai,…. eles vieram de Guarulhos para se perder com uma caipira que mora a doze anos em Campo Grande mais não sabe nada da cidade. Mais então eu tive um insight. Paramos na frente da casa da Marcella, eu desci e desesperadamente perguntei pra ela. Enfim, achamos o tal lugar! Era na mesma rua em que eles me encontraram. Acreditam? Eu passo em frente do lugar sempre que vou a pé para casa e nunca enxerguei que aquilo era uma igreja.

Esse é o templo de São Paulo. A foto foi tirada por Eliária Andrade, para um artigo, chamado “Sete Maravilhas escondidas em São Paulo”  em “O Globo” feito por Luísa Alcalde e Bárbara Souza. A templo daqui é bem mais simples, mas não deixa e ser bonito e aconchegante.

Ainda que não se pareça com uma igreja normal, tinha uma placa visível em letras garrafais: Igreja Messiânica do Brasil. Onde eu assino meu atestado de sonsisse?

Por fim, cheguei em casa. O casal bonzinho foi embora feliz. E eu pude finalmente almoçar.